segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Impressões de Novembro...

"Ninguém alguma vez ou pintou,
 esculpiu, modelou, construiu ou inventou
 senão para sair do inferno."
 (Antonin Artaud)

Da última vez que te vi
Restaram pedaços de tarde.
Aquelas horas sem infância 
Cheias de aranhas verdes
Que enfeitam os corações com teias
Ainda que não tenham esperança.
#
Da última vez que te vi
Restaram alguns fios de barba 
Prendendo o sol no lábio mudo.
Escondido no riso disfarçado, 
Mora o que não cabe no mundo.
#
Da última vez que te vi
Restaram  poemas náufragos.
Ainda bóiam num certo lago...
Carecem de vento que os arraste
Para um chão que seja surdo.
#
Da última vez que te vi 
Restaram sonhos e arestas.
O poeta entrou para o Convento
Num silêncio maior que novembro.
Porém, um beijo no mirante gritou
Nada morre se algo ainda resta.

(DeVotchka - How it Ends)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Dos olhos e outras harmonias...

♪ Teus olhos abrem pra mim
Todos os encantos bons ♪
(Marcelo Camelo)


Nos arranjos do teu riso
Desato todas as cordas
Nos teus olhos, o motivo
Do encanto destas notas.

Pedaços de noite. Loucura?
A música desenha as portas
Sem chaves ou censuras
São acordes para o agora.

Rimas de desejo e calma:
O instante que me namoras
De longe, com as sonatas
Do bandolim que me toca.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Cidade

"Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de São Paulo
E como um escravo vou medindo a vacilante música das flâmulas"
(Roberto Piva)


São rápidos os dias
na cidade dos beirais enfumaçados.
A neblina encoraja o fluxo das artérias
cada qual sopra suas nuvens e segue
desviando dos olhos amarelos
que convidam a lembrar da vida.
Quem quererá paz na cidade da sedutora agonia?
A calma é bebida em cafés espalhados nas calçadas,
enquanto o comércio engrossa sua romaria.
É tácito o entendimento entre as línguas.
Um gosto estrangeiro que engorda e desafia
a perder-se nas vistas dos viadutos
por onde se movem paixões e temores.
Enquanto a Torre liberta o mundo
que se esconde sobre as calçadas,
pessoas se fecham em vagões sem cores...
Espaços de multidões que se calam
Para viajar nos sonhos que ninguém embarca.


                                          (Cat Power - The Greatest)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Amor?

"Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste"
(Adélia Prado)

Vamos desinventar o amor
Coloquemos mais carne nos sonhos
Pois estes só têm nuvens sob a pele.
Jogaremos fora as flores de cor amorosa
E todos os vestidos vermelhos
São miragens o que essas coisas provocam.
As cartas ridículas estão proibidas!
(Nada é pior que o desamparo de um réu confesso)
Crime mesmo é quando acabamos com o mistério.
Quem vai querer as dores e os temores?
Todos querem ser a novela das oito
Sem passar pelos erros de bastidores.



(Escândalo- Caetano Veloso)


terça-feira, 4 de junho de 2013

Para Tuca Zamagna
“É um ser que amanhece
Para que se ponha.
E a mente, qual prece,
mente!, pois me sonha.”
(Nauro Machado)

Nenhuma palavra é inocente.
Tampouco o pensamento, livre de culpa.
Peraltice é a arte que nunca envelhece,
é verdade que a muitos cutuca.

Tem pedra que se gaba de sua muralha.
Que nem se move esperando a luta.
Desconhece a beleza fora da vaidade
e a liberdade da poeira que flutua.

Quem conhece a natureza magna
sabe o bom humor que pariu a  poesia.
Quem bebeu nove meses dessa água
não se rende a qualquer ironia.

(Música: Bandeira de Aço/ Composição: César Teixeira)

terça-feira, 19 de março de 2013


FULANA
“E lhe dou todas as faces
de meu sonho que especula;
e abolimos a cidade
já sem peso e nitidez.
(O Mito – C. Drummond de Andrade)

Minha cidade não tem portas,
mas planejo fugas entre goles de chá.
Fulano fez casa numa esquina estrangeira
e vive de plantar ideias que movem ruas de lugar.
- Que tem eu e Fulano?!
Nada.
Só Fulana, que escolhemos amar!
Com ela, tem ele umas afinidades históricas...
Coisas de terra, de sangue, de vida orgulhosa.
A mim, sobra aquela tristeza noturna
que me sopra o peito, e penso:
-“Às vezes, Fulana, existe demais”.
E sucumbo aos mistérios e desconhecimentos
De uma voz que ousou me contar de Fulana
para que sua lembrança não me deixasse em paz.

(Amor de Índio - Voz: Maria Gadú/ Composição: Beto Guedes)
                                                                         


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Das trilhas e suas variantes



“Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante,
Que anda, voa, está em toda parte
E não consegue pousar em ponto algum.
Observai sua armadura de penas
E ouvi seu grito eletrônico.”
(Murilo Mendes – Overmundo)


Deixei que respirassem os tremores de minhas mãos
crendo que a velhice traria leveza a certas coisas.
Mas a loucura, que era nossa, permanece
qual coluna grega neste caminho sem pedras.
Em minhas viagens, fotografo rebeldia e beleza
que brilham nos suspiros das paisagens mortas.
E o poeta que ainda cresce nas margens carrega, calado,
mundos que não cabem em sua mochila.
Quando se conhece como as palavras são por dentro,
não se pode confiar no que os olhos enxergam.
A dúvida e o silêncio alimentam o que somos nós.
Por amor muita poeira sujou nossos sapatos,
mas, de amor não se fez o que mais importa:
um ninho para o descanso dos pássaros,
uma sombra onde repousasse o concerto de girassóis.




(Gustavo Santaolalla - Pajaros)


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Dos segredos do amor e outras saudades







"Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo.

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento."

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Diria que é pretérito mais que perfeito.
Daqueles que se conjugam até o fim dos dias.
Não pela ação que mudou o rumo dos ventos,
mas pela ficção que movimentou o moinho.
Uma brisa ainda sopra todas as vezes
que me é permitido ler o amor em volta.
Essa impressão se abriga na saliva.
Naquele gosto ansioso dos meus encontros com tua escrita.
Era alquimia disfarçada de notícias naquelas páginas.
Toda veste desaparecia.
Nenhum espaço resistia.
Tu estavas ali e, desde a primeira frase,
entendi que o mundo criou as palavras
só para que pudéssemos existir.
E, assim, plantei em meu coração um mito amoroso
para que outras realidades pudessem florir.
Já nem sei com que nostalgias construí meu castelo de cartas.
Mas meu coração ainda é um reino de irresistíveis saudades
com heróis que não empunham caneta ou espada.


(Alpha- Sometime Later)
(Imagem tirada da web- Às de Copas)



segunda-feira, 11 de junho de 2012

Epílogo



"Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde."
(Chico Buarque)

Partiu-se o mundo inventado
Partiram-se as intenções do trato
Partimos, enfim, sem nenhum perdão.
Ninguém conseguiu encontrar um afago
Talvez, um murmúrio de lamento no ato
Que conduziu o amor, vencido, até o portão.


(Preciso me encontrar - Candeia/ Cartola)
(Foto: Adriana Araújo)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Ciúmes


"Para que me pôr no tronco
Para que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Porque me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com o sinal
Da santa cruz"
(Sinhá - João Bosco/Chico Buarque)


Aquilo que move a dor à razão tarda
Toda explicação é qual fruto estéril

Quando o coração torna-se terra fértil
Para ervas que se alimentam de mágoas.

As alegrias se agarram nas barras da história
Para a lucidez solfejar à memória o que restou...

Mas quem ouvirá a rouquidão do amor?
Os lábios já herdaram a fé do inquisidor:

Respostas queimando em fogueiras inglórias

Pecados imperdoáveis que ninguém praticou.





(John Coltrane - In A Sentimental Mood)
(Arte tirada da web/autor desconhecido)