terça-feira, 4 de junho de 2013

Para Tuca Zamagna
“É um ser que amanhece
Para que se ponha.
E a mente, qual prece,
mente!, pois me sonha.”
(Nauro Machado)

Nenhuma palavra é inocente.
Tampouco o pensamento, livre de culpa.
Peraltice é a arte que nunca envelhece,
é verdade que a muitos cutuca.

Tem pedra que se gaba de sua muralha.
Que nem se move esperando a luta.
Desconhece a beleza fora da vaidade
e a liberdade da poeira que flutua.

Quem conhece a natureza magna
sabe o bom humor que pariu a  poesia.
Quem bebeu nove meses dessa água
não se rende a qualquer ironia.

(Música: Bandeira de Aço/ Composição: César Teixeira)

terça-feira, 19 de março de 2013


FULANA
“E lhe dou todas as faces
de meu sonho que especula;
e abolimos a cidade
já sem peso e nitidez.
(O Mito – C. Drummond de Andrade)

Minha cidade não tem portas,
mas planejo fugas entre goles de chá.
Fulano fez casa numa esquina estrangeira
e vive de plantar ideias que movem ruas de lugar.
- Que tem eu e Fulano?!
Nada.
Só Fulana, que escolhemos amar!
Com ela, tem ele umas afinidades históricas...
Coisas de terra, de sangue, de vida orgulhosa.
A mim, sobra aquela tristeza noturna
que me sopra o peito, e penso:
-“Às vezes, Fulana, existe demais”.
E sucumbo aos mistérios e desconhecimentos
De uma voz que ousou me contar de Fulana
para que sua lembrança não me deixasse em paz.

(Amor de Índio - Voz: Maria Gadú/ Composição: Beto Guedes)
                                                                         


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Das trilhas e suas variantes



“Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante,
Que anda, voa, está em toda parte
E não consegue pousar em ponto algum.
Observai sua armadura de penas
E ouvi seu grito eletrônico.”
(Murilo Mendes – Overmundo)


Deixei que respirassem os tremores de minhas mãos
crendo que a velhice traria leveza a certas coisas.
Mas a loucura, que era nossa, permanece
qual coluna grega neste caminho sem pedras.
Em minhas viagens, fotografo rebeldia e beleza
que brilham nos suspiros das paisagens mortas.
E o poeta que ainda cresce nas margens carrega, calado,
mundos que não cabem em sua mochila.
Quando se conhece como as palavras são por dentro,
não se pode confiar no que os olhos enxergam.
A dúvida e o silêncio alimentam o que somos nós.
Por amor muita poeira sujou nossos sapatos,
mas, de amor não se fez o que mais importa:
um ninho para o descanso dos pássaros,
uma sombra onde repousasse o concerto de girassóis.




(Gustavo Santaolalla - Pajaros)


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Dos segredos do amor e outras saudades







"Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo.

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento."

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Diria que é pretérito mais que perfeito.
Daqueles que se conjugam até o fim dos dias.
Não pela ação que mudou o rumo dos ventos,
mas pela ficção que movimentou o moinho.
Uma brisa ainda sopra todas as vezes
que me é permitido ler o amor em volta.
Essa impressão se abriga na saliva.
Naquele gosto ansioso dos meus encontros com tua escrita.
Era alquimia disfarçada de notícias naquelas páginas.
Toda veste desaparecia.
Nenhum espaço resistia.
Tu estavas ali e, desde a primeira frase,
entendi que o mundo criou as palavras
só para que pudéssemos existir.
E, assim, plantei em meu coração um mito amoroso
para que outras realidades pudessem florir.
Já nem sei com que nostalgias construí meu castelo de cartas.
Mas meu coração ainda é um reino de irresistíveis saudades
com heróis que não empunham caneta ou espada.


(Alpha- Sometime Later)
(Imagem tirada da web- Às de Copas)



segunda-feira, 11 de junho de 2012

Epílogo



"Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde."
(Chico Buarque)

Partiu-se o mundo inventado
Partiram-se as intenções do trato
Partimos, enfim, sem nenhum perdão.
Ninguém conseguiu encontrar um afago
Talvez, um murmúrio de lamento no ato
Que conduziu o amor, vencido, até o portão.


(Preciso me encontrar - Candeia/ Cartola)
(Foto: Adriana Araújo)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Ciúmes


"Para que me pôr no tronco
Para que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Porque me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com o sinal
Da santa cruz"
(Sinhá - João Bosco/Chico Buarque)


Aquilo que move a dor à razão tarda
Toda explicação é qual fruto estéril

Quando o coração torna-se terra fértil
Para ervas que se alimentam de mágoas.

As alegrias se agarram nas barras da história
Para a lucidez solfejar à memória o que restou...

Mas quem ouvirá a rouquidão do amor?
Os lábios já herdaram a fé do inquisidor:

Respostas queimando em fogueiras inglórias

Pecados imperdoáveis que ninguém praticou.





(John Coltrane - In A Sentimental Mood)
(Arte tirada da web/autor desconhecido)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Predestinação



"Eu não sei se ela sabe o que fez
 quando fez o meu peito cantar outra vez"
(Chico Buarque)
Vou arrancar do peito as horas mortas
Onde dormem minhas estrelas esquecidas
Pedaços de tempo descontados da história
Faltava teu riso para clarear a noite e o dia.

O coração não entendeu tanta demora...
Pareceu até cegueira, quem sabe, covardia
Essa ausência que apagava a aurora
Esquecia a festa e calava tua cantoria.

O destino perdia o acaso em cada esquina
- canto desencantado da vida -
Eu não inspirei teus sambas de amor
Nem tu, os versos da minha alegria...

O presente, porém, é corda de trovador
Onde a realidade, de sonho, se fantasia
Do que é passado nenhum acorde restou
Porque tua mão agora encontrou a minha.

- Nada do que não aconteceu importa
A felicidade é trama de linha grossa
E não podemos fugir da poesia -




(Jacob do Bandolim - Entre mil... você!!!)
(Arte: O Violinista Azul - Chagall)

domingo, 21 de agosto de 2011

Escorpião ascendente em Libra


“Vou incinerar teu coração de carne &
 de tuas cinzas vou fabricar a
 substância enlouquecida das
 cartas de amor”
 (Roberto Piva)


Eles percorriam a palma da noite em busca de destino e desamparo.
Do escuro brotaram sons, ondas sonoras que banhavam de suor a praia
reggando seus corpos em desordem com calma e cuidado, porque
sabiam que os desejos sempre foram substâncias incendiárias.
As estrelas escondidas nas extremidades dos pêlos e da carne
eram fugitivas de constelações esquecidas pelo reino da sanidade
condenadas por conhecerem os mistérios gravitacionais
dos delírios que se contorcem nos abraços.
Com a loucura servida em copos fabrica-se a silenciosa liberdade,
 o único antídoto possível para as tentações que afligem os lábios
que só querem beber a beleza de um instante que se abre
sem previsões de amanhã, pois é sempre tarde. 


(Flight Attendant-Josh Rouse)
(Fotografia: Adriana Araújo- Estátua do Bosque dos Namorados em Natal/RN)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Estratégia de guerra


"... Mais vasto é meu coração."
(Drummond)

(Para Carlos Drummond de Andrade)

Em que momento do dia não resisto às minhas setenta e sete outras vidas?
Qual será a hora vadia, limbo de regras e juízo, em que me desmantelo?
Quando é que a burocrática certeza deste mundo desanda em fantasias?
Que corpo se subtrai ou multiplica quando piso no beco do que renego?
Tenho vícios que são como cigarras cantando eternos convites para a folia.
(Minha poesia = substantivo entorpecido com almas de deuses e servos)
E eu, teimoso como sou, me orgulho em perseverar nesta rotina de formiga.
Para cá de meus óculos, forjo esta armadura em que minto meu protesto.
Para lá da realidade mesquinha, misturo meu sangue no papel e na tinta.


(Place to be- Nick Drake)
(Fotografia: Saul Estevam)

sábado, 4 de junho de 2011


Para Kyara
Tua presença é tão íntima quanto aquela luz clara, acesa na palavra,
Ainda que distâncias sejam dizeres de saudade que a agonia sempre alcança.

No mundo de minhas artes, há lugares que só teu abraço torna habitáveis
Porque é nas brechas da carne que cultivamos nossa verve
E o chão da tua pele é aconchego de textura literária.

Não sei de que bebida nossos dedos se embriagam,
Mas a poesia que desaprendeu o silêncio, só no papel encontra cabimento
Para a desordem que a beleza da vida causa. 

Tua existência se espalha na fronteira do sossego e do arrepio
Escritos, sentidos...
És o amor que ocupa o espaço da minha alegria mais solitária.



Alta Noite- Arnaldo Antunes e Marisa Monte
Arte: Poema de Arnaldo Antunes e foto de Marcia Xavier publicada no livro Et Eu Tu