sexta-feira, 16 de março de 2012

Ciúmes


"Para que me pôr no tronco
Para que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Porque me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com o sinal
Da santa cruz"
(Sinhá - João Bosco/Chico Buarque)


Aquilo que move a dor à razão tarda
Toda explicação é qual fruto estéril

Quando o coração torna-se terra fértil
Para ervas que se alimentam de mágoas.

As alegrias se agarram nas barras da história
Para a lucidez solfejar à memória o que restou...

Mas quem ouvirá a rouquidão do amor?
Os lábios já herdaram a fé do inquisidor:

Respostas queimando em fogueiras inglórias

Pecados imperdoáveis que ninguém praticou.





(John Coltrane - In A Sentimental Mood)
(Arte tirada da web/autor desconhecido)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Predestinação



"Eu não sei se ela sabe o que fez
 quando fez o meu peito cantar outra vez"
(Chico Buarque)
Vou arrancar do peito as horas mortas
Onde dormem minhas estrelas esquecidas
Pedaços de tempo descontados da história
Faltava teu riso para clarear a noite e o dia.

O coração não entendeu tanta demora...
Pareceu até cegueira, quem sabe, covardia
Essa ausência que apagava a aurora
Esquecia a festa e calava tua cantoria.

O destino perdia o acaso em cada esquina
- canto desencantado da vida -
Eu não inspirei teus sambas de amor
Nem tu, os versos da minha alegria...

O presente, porém, é corda de trovador
Onde a realidade, de sonho, se fantasia
Do que é passado nenhum acorde restou
Porque tua mão agora encontrou a minha.

- Nada do que não aconteceu importa
A felicidade é trama de linha grossa
E não podemos fugir da poesia -




(Jacob do Bandolim - Entre mil... você!!!)
(Arte: O Violinista Azul - Chagall)

domingo, 21 de agosto de 2011

Escorpião ascendente em Libra


“Vou incinerar teu coração de carne &
 de tuas cinzas vou fabricar a
 substância enlouquecida das
 cartas de amor”
 (Roberto Piva)


Eles percorriam a palma da noite em busca de destino e desamparo.
Do escuro brotaram sons, ondas sonoras que banhavam de suor a praia
reggando seus corpos em desordem com calma e cuidado, porque
sabiam que os desejos sempre foram substâncias incendiárias.
As estrelas escondidas nas extremidades dos pêlos e da carne
eram fugitivas de constelações esquecidas pelo reino da sanidade
condenadas por conhecerem os mistérios gravitacionais
dos delírios que se contorcem nos abraços.
Com a loucura servida em copos fabrica-se a silenciosa liberdade,
 o único antídoto possível para as tentações que afligem os lábios
que só querem beber a beleza de um instante que se abre
sem previsões de amanhã, pois é sempre tarde. 


(Flight Attendant-Josh Rouse)
(Fotografia: Adriana Araújo- Estátua do Bosque dos Namorados em Natal/RN)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Estratégia de guerra


"... Mais vasto é meu coração."
(Drummond)

(Para Carlos Drummond de Andrade)

Em que momento do dia não resisto às minhas setenta e sete outras vidas?
Qual será a hora vadia, limbo de regras e juízo, em que me desmantelo?
Quando é que a burocrática certeza deste mundo desanda em fantasias?
Que corpo se subtrai ou multiplica quando piso no beco do que renego?
Tenho vícios que são como cigarras cantando eternos convites para a folia.
(Minha poesia = substantivo entorpecido com almas de deuses e servos)
E eu, teimoso como sou, me orgulho em perseverar nesta rotina de formiga.
Para cá de meus óculos, forjo esta armadura em que minto meu protesto.
Para lá da realidade mesquinha, misturo meu sangue no papel e na tinta.


(Place to be- Nick Drake)
(Fotografia: Saul Estevam)

sábado, 4 de junho de 2011


Para Kyara
Tua presença é tão íntima quanto aquela luz clara, acesa na palavra,
Ainda que distâncias sejam dizeres de saudade que a agonia sempre alcança.

No mundo de minhas artes, há lugares que só teu abraço torna habitáveis
Porque é nas brechas da carne que cultivamos nossa verve
E o chão da tua pele é aconchego de textura literária.

Não sei de que bebida nossos dedos se embriagam,
Mas a poesia que desaprendeu o silêncio, só no papel encontra cabimento
Para a desordem que a beleza da vida causa. 

Tua existência se espalha na fronteira do sossego e do arrepio
Escritos, sentidos...
És o amor que ocupa o espaço da minha alegria mais solitária.



Alta Noite- Arnaldo Antunes e Marisa Monte
Arte: Poema de Arnaldo Antunes e foto de Marcia Xavier publicada no livro Et Eu Tu

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Apenas isso


Para o Guardião de Minhas Quimeras

Porque os peixes cometem suicídio?!
- Olhe as ruas.
Nelas, há cores e sombras mais profundas.

"É entretanto referindo-se a cavalos que Werther alude à nobreza que marca todo suicídio: 'Fala-se e uma nobre raça de cavalos que, quando se sentem terrivelmente acalorados, esfalfados, têm o instinto de eles próprios se abrirem uma veia, com uma dentada, para respirar mais livremente. É o que acontece muitas vezes comigo: gostaria de me abrir uma veia, para me assegurar a liberdade eterna'"
(Fragmentos de um discurso amoroso - Roland Barthes)

Nosso estranho amor - Caetano Veloso
Arte: Klimt - The Blood of Fish

terça-feira, 19 de abril de 2011

Ensaio Para a Simplicidade


         

                  "Depois de algumas horas chegaram a um local onde havia trinta ou quarenta moinhos de vento.
                                       Dom Quixote reteve o seu Rocinante e falou a Sancho Pança, com um sorriso sublime:
                                                              - Vês a minha sorte? É a riqueza que vem ao nosso encontro. E a glória."
                                                                                                                                              (Dom Quixote- Miguel de Cervantes)


 
Um instante de cada vez. Ainda assim...
Não aprendi a contar o tempo de nossas horas.
Poderia, duas vidas, esperar por nós?
Talvez. Se as demoras não levassem os dias
nos escuros em que roubas o ar de meus pulmões.
Dei memórias antigas em troca de uma profecia:
Apostar o futuro para se perder nas revelações.
(Qual a mágica de uma casa vazia?
- Móveis e talheres sem voz.)
No entanto, isso tudo salva meu coração.
Cada silêncio-menino é um carinho escondido,
- brincando de mocinho e bandido -
nos bosques e labirintos de uma grande ficção.
Se a fantasia transforma em amor o moinho
Meu destino é beijá-lo com lábios de vento.
Dos mil e um segundos, é este o segredo.



Yann Tiersen-Le Moulin
 Arte: Jéssica Castro 

quarta-feira, 23 de março de 2011

Nudez

"Se ao te conhecer dei pra sonhar fiz tantos desvarios,
rompi com o mundo, queimei meus navios
me diz pra onde é que ainda posso ir"
(Chico Buarque)

Minha delicadeza dorme em teus olhos
Porque não são leves os meus sonhos
E espelhos nem sempre dizem a verdade.
Com quantas frases fugirei do teu riso
Até que tuas mãos não me deixem ir?
Dói-me essa lucidez teimosa e atenta
Que fere a carne e me deixa acordada
Mesmo que nossas noites nunca partam
(a memória é sempre estação de chegada)
E nenhuma lembrança é afeita ao fim.
É azul a paciência com que aguardo
Nascerem as flores dos passeios que fazes,
Vez em quando, sobre a pele exausta
Que tenta e não consegue esquecer de ti.




(Marcelo Camelo - Janta)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Aurora (ou A poesia do teu olhar)



“Ler se lê nos dedos, não nos olhos
Que os olhos são mais dados a segredos”
Leminski

"Você deve ser a sereia
Que enganou Netuno"
Procol Harum


Para Cris de Souza

A natureza líquida dos teus olhos
Não se assemelha ao mar.
Há neles um universo híbrido
Onde crescem segredos
E afloram versos-bichos...
Riscos de um claro verde solar.
São orbes de solo cristalino
Com águas de gestos felinos
Que provocam a palavra
E guiam os sentidos
Subvertem os escuros do não-lugar.
Embora negado aos ouvidos,
O som desses olhos valsa comigo
Em meio às ondas de luz que espelham
A poesia da íris que ouso enxergar.




(Claude Debussy - Claire de Lune)
(Imagem: Aurora Boreal - Fonte: Web - Fotolog)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Fabulário

"o amor é uma ponte de brinquedo
ele dança no pescoço
da manhã à noite"
(Roberto Piva)
... uma vez... a tarde esqueceu-se de partir
Os gansos não abandonaram o lago
E Modigliani pintava uma senhora feliz.

... uma vez... os bichos ousaram sorrir
Os poetas vestiram-se com pêlos de gato
E inventaram noites e luas só para si.

... uma vez... a palavra deixou-se possuir
Os signos abraçados sentiam amor de fato
E ofereci nas cartas pedaços de mim.

... uma vez... os olhos quiseram dormir
Os sonhos fizeram com o dia um trato
E misturo ao café o gosto que trago de ti.

... uma vez...
Era...





(Elliott Smith-Twilight)

(Arte: Marc Chagall - Le Paradis)