quinta-feira, 7 de junho de 2018

descaminhos


                                
desmonto meu verso e descubro
teu sorriso ardendo na minha ideia
vereda aberta de silencioso desequilíbrio

- o amor é palma que brota no incerto -

quando digo eu te amo
não quero a semente da flor inquieta
procuro encruzilhadas e margens de rio.


                                             (Retrato da Vida - Dominguinhos + Djavan)

sábado, 2 de junho de 2018

excerto sobre calor n.1

um corredor de luz
no meio da avenida escura
isso é o amor? não
mas é um caminho
não torça o nariz pro que eu digo
sábio é quem desconfia do óbvio.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

arquitetura



os frutos do meu engenho
são tijolos em minha cidade
eles constroem o tempo
as pedras que se movem entre meus pés
dando nome ao que não consegue ser silêncio

minha cabeça pesa
tantas palavras se parecem com teus olhos
escrevo-as nas folhas secas do jardim
para queimá-las feito incenso
até que desapareçam e eu sinta apenas
o leve aroma da tua presença

não há descanso maior que este
tornar sensível o querer-te mais perto
tocar a fumaça do teu cheiro com minhas narinas
adormecendo a fogueira da melancolia

nunca pude me vangloriar do esquecimento
todos os poemas almoçam e jantam teu nome
a mágica está em esconder em cada signo
o meu amor
essa catedral que trago oculta em meu peito.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

manhãs de domingo


certas manhãs de domingo
são tão verdes que poderíamos 
comê-las com sal 
nascem dentro da barriga 
e fazem um barulho de fome
em manhãs de domingo
saudades crescem como plantas
ansiosas por afagos potáveis
e fazem de toda lâmpada
um raio solar
são manhãs alargadas
atentas ao rangido das portas 
bordadas com a linha delicada
das dissonâncias 
entre livros e cotidiano 
gosto de manhãs assim
ensinam-me a conviver 
com o amor adiado 
para qualquer tarde que não sei 
se algum dia cairá em meus braços.


sábado, 12 de maio de 2018

fauna

a boca se abre e de dentro saltam
velhas alquimias de sede e água
não são fáceis os diálogos entre 
gatos e pássaros
há que se elaborar um dicionário 
de nuances para rastros de pelo e pena
esquecidos sobre cada palavra
atirada no precipício das diferenças 
o poema que já foi um soldado 
entrincheirado
na última guerra dos vencidos
hoje inventa vitórias disfarçadas 
de surrealismo
gato e pássaro ruminam o horizonte 
com suas línguas amputadas
enquanto arrastam devagar 
o seu amor entre as folhagens.


                                                             (Erik Satie - Gnossienne Nº1)





segunda-feira, 23 de abril de 2018

nova era


quem se interessa
pela queda dos impérios
quando o amor está arruinado
e a existência não tem mais
um endereço físico?
a grandeza tem outro significado
para quem está com o nariz
arrastando na terra
tentando suportar o martírio

se a estratégia da natureza
é tornar tudo adaptável
prefiro ser mais um fóssil
na galeria dos extintos
não compactuarei com a fala
saudosa da ordem imposta
aos mortos e exilados
quero ouvir a voz dos loucos
- do coração-partido -
que tremula na bandeira manchada
pela fome indignada dos aflitos.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

por uma causa


            "onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
      não é poesia"
                                (António Ramos Rosa)



esqueça as metáforas 
não brinco mais com palavras 
no avesso do sonho 
você consegue me ouvir? 
trata-se de saudade 
crua 
deslavada 
atravessando aquela ponte 
de mosquito sem asa 
tentando dizer 
que a poesia 
é um mapa 
para burlar as fronteiras 
antidemocráticas 
de uma vida pacata e feliz 
vou gritar 
morte aos fantasmas 
até que me vejam 
nua 
desarmada 
até que você saiba 
que não esqueço de nada 
até que você ouça 
a falta de ar 
e a corrente sanguínea acelerada 
que movimentam meu coração. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

subversão

                                         "suave coisa nenhuma"
                                   (Secos e Molhados)

guernica
tela bonita
centenas de mortos

a rosa de hiroxima
virou melodia
amontoado de corpos

os anjos de sodoma
não se qualificam
no paraíso mórbido

pietá
é a rainha
daqueles que choram

a arte  não apazigua
beleza subversiva
hemorragia no poro.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Espera

eu esperei, meu amor
esperei que você lembrasse
das listras azuis, do vestido
e da preamar que todo aquele 
movimento causou nos teus olhos

esperei inutilmente que você viesse
discutir a impossibilidade do verso
porque as palavras que inventam o passado
não sabem mentir sobre o silêncio

você esqueceu o burburinho da tarde
as vozes de poemas novos e velhos
que sentam embaixo de árvores
e revolucionam o conceito de amor

eu queria que você voltasse para ver
o que fiz com pedaços da minha saudade
essa coisa que às vezes cheira a sangue
como o céu rebelado do poente

esperei que as guerras acabassem
para que pudéssemos nomear as sementes
mas a humanidade não é mais a mesma
e você desistiu de lutar pelo que restou.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Confissão

"Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras."
(Maiakóvski)

Se eu tivesse força suficiente
para negar aquilo que em mim 
transforma pó em palavra,
Deixaria cada uma de minhas páginas 
descansando sob meus sapatos
Levaria adiante apenas aquele silêncio
típico dos que alcançam o paraíso. 
Mas essa fraqueza que me arrasta,
escreve para merecer a luz que 
cada um comunga com as estrelas.
(Substância primeira
Instância derradeira)
Se eu tivesse força suficiente,
negaria cada um dos verbos que se
movem para compor minha desordem
E seguiria com a aparência leve.
Mas sei que nenhuma ausência 
transpira um verso honesto.
O poeta surge de corpo aberto
e alma derramada,
Sua escrita corre e se espalha 
pesando sobre os móveis, sujando 
as unhas, dando a cara a tapa.
Se eu tivesse força suficiente, 
quereria apenas a parte que me cabe.
Só que minha natureza é a dos fracos
Dos que carregam seus ossos expostos 
Dos que não resistem
Dos que não se calam.