quarta-feira, 18 de abril de 2018

subversão

                                         "suave coisa nenhuma"
                                   (Secos e Molhados)

guernica
tela bonita
centenas de mortos

a rosa de hiroxima
virou melodia
amontoado de corpos

os anjos de sodoma
não se qualificam
no paraíso mórbido

pietá
é a rainha
daqueles que choram

a arte  não apazigua
beleza subversiva
hemorragia no poro.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Espera

eu esperei, meu amor
esperei que você lembrasse
das listras azuis, do vestido
e da preamar que todo aquele 
movimento causou nos teus olhos

esperei inutilmente que você viesse
discutir a impossibilidade do verso
porque as palavras que inventam o passado
não sabem mentir sobre o silêncio

você esqueceu o burburinho da tarde
as vozes de poemas novos e velhos
que sentam embaixo de árvores
e revolucionam o conceito de amor

eu queria que você voltasse para ver
o que fiz com pedaços da minha saudade
essa coisa que às vezes cheira a sangue
como o céu rebelado do poente

esperei que as guerras acabassem
para que pudéssemos nomear as sementes
mas a humanidade não é mais a mesma
e você desistiu de lutar pelo que restou.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Confissão

"Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras."
(Maiakóvski)

Se eu tivesse força suficiente
para negar aquilo que em mim 
transforma pó em palavra,
Deixaria cada uma de minhas páginas 
descansando sob meus sapatos
Levaria adiante apenas aquele silêncio
típico dos que alcançam o paraíso. 
Mas essa fraqueza que me arrasta,
escreve para merecer a luz que 
cada um comunga com as estrelas.
(Substância primeira
Instância derradeira)
Se eu tivesse força suficiente,
negaria cada um dos verbos que se
movem para compor minha desordem
E seguiria com a aparência leve.
Mas sei que nenhuma ausência 
transpira um verso honesto.
O poeta surge de corpo aberto
e alma derramada,
Sua escrita corre e se espalha 
pesando sobre os móveis, sujando 
as unhas, dando a cara a tapa.
Se eu tivesse força suficiente, 
quereria apenas a parte que me cabe.
Só que minha natureza é a dos fracos
Dos que carregam seus ossos expostos 
Dos que não resistem
Dos que não se calam.

sábado, 13 de dezembro de 2014

VIGÍLIA

"Ó madrugada, tardas tanto...
 Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este,
 a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste"
(Álvaro de Campos)
 
Tenho olheiras maiores que o céu 
da minha cidade
Há muito, dormir deixou de ser
importante 
O tempo de sonhar já acabou
Guardo apenas a leve sensação 
do sono
Que é azul e também amarelo
Para que assim permaneça
Escrito com luz no meu sorriso
(Quando lembro das noites de paz).
Manter-se acordado é imperativo 
Porque a vida é urgente
E se piscar o olho... Passou.
Cresce, corre, ama, casa, trabalha...
Seja feliz!
Cadê a calma? Cadê a alma?
- Fugiu com o passarinho verde
Que bateu asas e voou.

(Cazuza e Gilberto Gil: Um trem para as estrelas)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Impressões de Novembro...

"Ninguém alguma vez ou pintou,
 esculpiu, modelou, construiu ou inventou
 senão para sair do inferno."
 (Antonin Artaud)

Da última vez que te vi
Restaram pedaços de tarde.
Aquelas horas sem infância 
Cheias de aranhas verdes
Que enfeitam os corações com teias
Ainda que não tenham esperança.
#
Da última vez que te vi
Restaram alguns fios de barba 
Prendendo o sol no lábio mudo.
Escondido no riso disfarçado, 
Mora o que não cabe no mundo.
#
Da última vez que te vi
Restaram  poemas náufragos.
Ainda bóiam num certo lago...
Carecem de vento que os arraste
Para um chão que seja surdo.
#
Da última vez que te vi 
Restaram sonhos e arestas.
O poeta entrou para o Convento
Num silêncio maior que novembro.
Porém, um beijo no mirante gritou
Nada morre se algo ainda resta.

(DeVotchka - How it Ends)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Dos olhos e outras harmonias...

♪ Teus olhos abrem pra mim
Todos os encantos bons ♪
(Marcelo Camelo)


Nos arranjos do teu riso
Desato todas as cordas
Nos teus olhos, o motivo
Do encanto destas notas.

Pedaços de noite. Loucura?
A música desenha as portas
Sem chaves ou censuras
São acordes para o agora.

Rimas de desejo e calma:
O instante que me namoras
De longe, com as sonatas
Do bandolim que me toca.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Cidade

"Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de São Paulo
E como um escravo vou medindo a vacilante música das flâmulas"
(Roberto Piva)


São rápidos os dias
na cidade dos beirais enfumaçados.
A neblina encoraja o fluxo das artérias
cada qual sopra suas nuvens e segue
desviando dos olhos amarelos
que convidam a lembrar da vida.
Quem quererá paz na cidade da sedutora agonia?
A calma é bebida em cafés espalhados nas calçadas,
enquanto o comércio engrossa sua romaria.
É tácito o entendimento entre as línguas.
Um gosto estrangeiro que engorda e desafia
a perder-se nas vistas dos viadutos
por onde se movem paixões e temores.
Enquanto a Torre liberta o mundo
que se esconde sobre as calçadas,
pessoas se fecham em vagões sem cores...
Espaços de multidões que se calam
Para viajar nos sonhos que ninguém embarca.


                                          (Cat Power - The Greatest)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Amor?

"Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste"
(Adélia Prado)

Vamos desinventar o amor
Coloquemos mais carne nos sonhos
Pois estes só têm nuvens sob a pele.
Jogaremos fora as flores de cor amorosa
E todos os vestidos vermelhos
São miragens o que essas coisas provocam.
As cartas ridículas estão proibidas!
(Nada é pior que o desamparo de um réu confesso)
Crime mesmo é quando acabamos com o mistério.
Quem vai querer as dores e os temores?
Todos querem ser a novela das oito
Sem passar pelos erros de bastidores.



(Escândalo- Caetano Veloso)


terça-feira, 4 de junho de 2013

Para Tuca Zamagna
“É um ser que amanhece
Para que se ponha.
E a mente, qual prece,
mente!, pois me sonha.”
(Nauro Machado)

Nenhuma palavra é inocente.
Tampouco o pensamento, livre de culpa.
Peraltice é a arte que nunca envelhece,
é verdade que a muitos cutuca.

Tem pedra que se gaba de sua muralha.
Que nem se move esperando a luta.
Desconhece a beleza fora da vaidade
e a liberdade da poeira que flutua.

Quem conhece a natureza magna
sabe o bom humor que pariu a  poesia.
Quem bebeu nove meses dessa água
não se rende a qualquer ironia.

(Música: Bandeira de Aço/ Composição: César Teixeira)

terça-feira, 19 de março de 2013


FULANA
“E lhe dou todas as faces
de meu sonho que especula;
e abolimos a cidade
já sem peso e nitidez.
(O Mito – C. Drummond de Andrade)

Minha cidade não tem portas,
mas planejo fugas entre goles de chá.
Fulano fez casa numa esquina estrangeira
e vive de plantar ideias que movem ruas de lugar.
- Que tem eu e Fulano?!
Nada.
Só Fulana, que escolhemos amar!
Com ela, tem ele umas afinidades históricas...
Coisas de terra, de sangue, de vida orgulhosa.
A mim, sobra aquela tristeza noturna
que me sopra o peito, e penso:
-“Às vezes, Fulana, existe demais”.
E sucumbo aos mistérios e desconhecimentos
De uma voz que ousou me contar de Fulana
para que sua lembrança não me deixasse em paz.

(Amor de Índio - Voz: Maria Gadú/ Composição: Beto Guedes)